32% dos afroempreendedores já tiveram dificuldades na hora de pedir empréstimos. Expert explica
Segundo estudo, o empreendedor negro tem que esclarecer os motivos para pedido de crédito. 47% dos pedidos são negados

Foto: Frepik/ Divulgação
Apesar de movimentarem cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, 32% dos afroempreendedores, que são eles pretos e pardos, já enfrentaram dificuldade para acesso ao crédito em instituições financeiras.
Um estudo realizado pela PretaHub, em parceria com o Plano CDE e JP Morgan revela que ao tentar acesso ao crédito, o empreendedor negro teria que esclarecer as razões para essa movimentação. A pesquisa contou com 1.220 pessoas negras brasileiras, de diversas classes sociais, com a intenção de mapear quais são as principais dificuldades encontradas pelo afroempreendedor no Brasil.
A 14ª edição da pesquisa sobre o impacto da pandemia da covid-19 nos pequenos negócios, realizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2022, revelou que desde o início da pandemia, 51% dos afroempreendedores buscaram empréstimo, ante a 49% dos brancos. No entanto, apenas 34% dos brancos tiveram o pedido negado, enquanto os negros tiveram 47% das solicitações recusadas.
Segundo o economista César Bergo, isso se deve a um aspecto cultural, que precisa ser mudado por meio de políticas públicas. Para ele, há também o preconceito estrutural, que resulta na exclusão daqueles que possuem menor escolaridade.
“Quando a gente fala em crédito, nós temos que levar em consideração alguns aspectos, um deles é o caráter do crédito, que leva ao histórico do crédito individual. É muito comum que o empreendedor negro não tenha esse histórico, tendo dificuldades, pois as instituições financeiras são muito seletivas nessa questão”, explicou
Em 2021, foi aprovada o Projeto de Lei (PL) nº 4529, do senador Fabiano Contarato (PT/ES), que alterou a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990 (Código de Defesa do Consumidor) dispondo sobre a obrigatoriedade de motivação para razões de recusa de crédito e combate a discriminação racial nas relações de consumo
Sobre discriminação ao negro por parte das instituições financeiras, o economista pontua que os bancos possuem liberdade quanto a politicas de crédito, dando lugar a requisitos que os interessados em adquirir o crédito precisam seguir, como declarar o tamanho do empreenddimento e sua liquidez, além de suas garantias.
“Esse tipo de problema é inerente a qualquer tipo de crédito, seja ele concedido a brancos, pretos e pardos, mas no caso particular, há necessidades que programas e políticas públicas defendam esse segmento, como ocorre nas questões de cotas”, defende.
Para César, é necessário que o governo haja nesse sentido, sobretudo, no que diz respeito ao Banco Central e entidades de acompanhamento de crédito que apoiam o afroempreendedorismo, para que os negros não sejam discriminados na concessão de crédito.
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Sérgio All
Foto: Conta Black
Inspirado nesse contexto enfrentado por muitos negros e por ele mesmo, o publicitário e especialista em finanças Sérgio All decidiu criar seu próprio banco, voltado para à população negra e de baixa renda.
“Quantos Sergio’s existem?”, se questionou ao entender que se tratava de uma questão social, racial e seletiva, o “não” que ele recebeu e muitos negros ainda recebem. “Se os bancos não nos querem, podemos criar uma comunidade financeira”, afirmou Sérgio ao fundar a Conta Black
Com o objetivo de auxiliar os negros com acessso a crédito e a educação financeiras, surgiram iniciativas, que podem ser utilizadas pelos afroempreendedores, como o Movimento Black Money e NoFront.
O Movimento Black Money visa o favorecimento de negócios de afroempreendedores. É um hub de inovação para inserção e autonomia da comunidade negra na era digital, com foco em comunicação, educação e geração de negócios pretos. O Movimento tem como propósito conectar aqueles que possuem o mesmo objetivo, construindo assim uma sociedade mais igualitária. Além disso, seu diferencial é o estímulo do desenvolvimento identitário e do mindset de inovação ao ecossistema afroempreendedor.
Já o NoFront é uma plataforma, gerida pela economista Gabriela Chaves e pelo planejador financeiro, Rodrigo Dias, que atua promovendo o empoderamento financeiro da comunidade negra e periférica, por meio de cursos, consultorias, palestras, workshops e podcast.
Matéria: Danielle Souza
